De Goiânia a Lages: o caminho do Dr. Matheus Gonçalves até a odontologia
Nossa história Dr. Matheus Gonçalves · CRO/SC 20850

Na tarde de 18 de fevereiro de 2016, uma ligação mudou meus planos. Eu estava em Goiânia e precisava estar em uma faculdade de Balneário Camboriú no dia seguinte para garantir minha vaga em odontologia.
Não tinha passagem, dinheiro disponível ou lugar para ficar. Poucas horas depois, estava arrumando as malas para uma viagem que ainda não sabia como conseguiria fazer.
Para entender o que aquela oportunidade significava, preciso voltar um pouco no tempo.
Um sonho que começou em Goiânia
Nasci em Goiânia, Goiás, em uma família humilde. Minha infância teve futebol, brincadeiras na terra e pipas no céu. Guardo boas lembranças daquele tempo e uma gratidão especial pela minha mãe, que sempre foi firme ao orientar minhas escolhas e amizades.
Ela é técnica em enfermagem e ama cuidar das pessoas. Seu exemplo despertou meu interesse pela saúde. Ao mesmo tempo, desde pequeno eu vendia balas, pirulitos e tomates na feira. Queria trabalhar, crescer e construir algo próprio.
Minha bisavó também teve uma presença muito importante na minha infância. Guardo com carinho as lembranças que tenho dela.

A odontologia reuniu essas duas vontades: cuidar das pessoas e empreender. Mas o curso parecia distante da minha realidade. Mesmo que conseguisse uma bolsa, ainda precisaria pagar os materiais e encontrar uma maneira de me manter.
O ano em que precisei recomeçar
Concluí o ensino médio em 2014 e queria começar a faculdade em 2015. Trabalhava em uma panificadora e acordava de madrugada. Em um dos dias do Enem, o cansaço e a sobrecarga contribuíram para um erro: não preenchi o cartão de respostas.

Meu plano de entrar na faculdade no ano seguinte ficou adiado.
Usei 2015 para resolver documentos, tirar minha habilitação e cumprir outras responsabilidades. Comecei a trabalhar em um escritório de cobrança, onde conheci Daniel, um chefe que acreditou em mim e me incentivou a buscar novas oportunidades.
Refiz o Enem. Para ter uma alternativa, também prestei vestibular para Enfermagem na PUC Goiás. Queria continuar estudando enquanto buscava um caminho para a odontologia.
Uma ligação e uma viagem inesperada
Em 15 de fevereiro de 2016, comecei as aulas de Enfermagem. Naquele mesmo dia, recebi um e-mail sobre uma oportunidade em Odontologia, com financiamento pelo Fies, em Balneário Camboriú.
Vi a mensagem no dia seguinte e comecei o cadastro. Na quinta-feira, ao tentar avançar na etapa de matrícula, precisei ligar para a faculdade. Simone, da secretaria, explicou que a assinatura deveria ser presencial, até o dia seguinte.
Senti que o sonho poderia ser adiado outra vez.
Minha tia Selma, em Brasília, comprou uma passagem saindo de lá às seis horas da manhã. Restava conseguir chegar de Goiânia a Brasília.
Voltei para casa e comecei a arrumar as malas. Quando minha mãe chegou, contei o que estava acontecendo. A despedida foi emocionada e preparada em poucas horas.
Meu pai tentou me ajudar com o transporte, mas seu carro apresentou um problema. Fomos à rodoviária e chegamos cerca de quinze minutos depois da saída do último ônibus para Brasília.
Depois de outras tentativas, ele pagou um mototáxi para me levar. Saí perto da meia-noite, com a mala e a expectativa de chegar a tempo. Minha fé me ajudou a perseverar: naquele momento, eu sentia que precisava continuar, mesmo sem ter todas as respostas.
Cheguei a Brasília de madrugada, descansei um pouco e minha tia me levou ao aeroporto. Fiz conexão em Campinas, onde reservei um hostel em Balneário Camboriú. Até então, nem tinha um lugar definido para ficar.
Desembarquei em Navegantes e segui de van para Balneário. Fui direto à faculdade, com as malas, e consegui fazer a matrícula.
Daniel me ajudou com a passagem de volta a Goiânia. Busquei o restante das minhas coisas, resolvi as pendências e retornei a Santa Catarina, dessa vez de ônibus.

Trabalhar para continuar estudando
No começo, fiquei no hostel. Na segunda semana, consegui emprego em cobrança e passei a dividir apartamento com outras duas pessoas.
Balneário Camboriú me encantou, mas o custo de vida e a perspectiva da dívida do financiamento pesavam. Uma bolsa integral pelo ProUni abriu um novo caminho: Lages.
Cheguei à cidade em 10 de agosto de 2016, em um dia de muito frio. Para economizar em algumas viagens, peguei carona de caminhão até Correia Pinto e segui de ônibus para Lages.

Durante a graduação, trabalhei em cobrança, inclusive no Banco da Família, e como consultor de negócios contratado pela Flex. Quando o curso passou a ser integral, precisei reorganizar minha rotina. Fiz entregas, trabalhei como garçom e auxiliar de cozinha e, no fim da graduação, com transporte por aplicativo.
Houve momentos em que faltou até alimento. Também recebi ajuda para comprar materiais. Lembro com gratidão das pessoas que contribuíram para que eu continuasse estudando.
A pandemia mudou meus planos
No oitavo semestre, decidi voltar para Goiânia. Queria concluir o curso e construir conexões para exercer a profissão lá. Transferi a faculdade e a bolsa do ProUni.
Mas minha vida em Lages já tinha um vínculo importante. Olga havia sido minha amiga antes de se tornar minha namorada. Em 13 de fevereiro de 2020, antes de partir, pedi que ela namorasse comigo.
Cursei um semestre em Goiânia. Naquele ano, a pandemia trouxe isolamento, incertezas e dificuldades que também atravessaram minha formação. A distância da Olga pesava emocionalmente.
Em julho, viajei para visitá-la de surpresa. A conexão durou mais de quinze horas, e precisei dormir no chão do aeroporto. O reencontro reforçou minha vontade de estar perto dela.
Voltei a Goiânia, mas decidi regressar a Lages para construirmos nossa vida juntos e concluir a graduação. Cheguei em 9 de setembro de 2020. Alugamos um apartamento e, na sequência, nos casamos no cartório.
Exatamente um ano depois, em 9 de setembro de 2021, nasceu nosso filho Gael. Essa data se tornou muito especial para nós.
O primeiro diploma da minha família
Concluí a graduação em odontologia no segundo semestre de 2021. Tornei-me o primeiro da minha família a conquistar um diploma de ensino superior.
Minha colação de grau foi em gabinete. As condições financeiras não permitiam participar das comemorações de formatura. Ainda assim, aquele diploma representava anos de estudo, trabalho, mudanças e apoio de pessoas que fizeram parte da minha caminhada.

Depois de formado, trabalhei em Agrolândia e Trombudo Central. Saía de Lages na segunda-feira e voltava no sábado, enquanto Olga e Gael, ainda recém-nascido, permaneciam aqui.
A profissão abriu caminho para continuar aprendendo
Em março de 2022, iniciei a especialização em Ortodontia. Ainda havia dificuldades financeiras, mas uma mudança importante começava a acontecer: o próprio trabalho como cirurgião-dentista ajudava a pagar minha formação.
A graduação havia sido possível com uma bolsa integral. Agora, eu conseguia investir na continuidade dos estudos com os recursos da profissão que havia escolhido.
Concluí a especialização em novembro de 2024, depois de quase três anos de curso.
O caminho até ali me ensinou a persistir, reconhecer ajuda e valorizar as oportunidades. Foi com essa experiência que comecei a construir minha maneira de trabalhar: ouvir, explicar e tratar cada paciente com respeito.
Lages se tornou o lugar onde construí minha família e minha trajetória profissional. A criação da iClinic é o próximo capítulo dessa história.
